Must Read: “todas as cartas de amor”, de Paulo José Miranda

Há alguns livros que causam um efeito muito curioso sobre mim, como se aquilo que estivesse em minhas mãos fosse a maior descoberta que fiz em toda a minha vida. E assim se sucedeu mais uma vez, quando terminei de ler a carta de número 52 do livro “Todas as Cartas de Amor”, do escritor português Paulo José Miranda.

Para quem não sabe, Paulo é um romancista, poeta e dramaturgo, cujo primeiro livro de poesias foi publicado em 1997 – ganhador do prêmio Teixeira de Pascoaes. Foi também vencedor da primeira edição do prêmio literário José Saramago, em 1999, pelo romance Natureza Morta. Viveu durante cinco anos na Turquia e, em 2005, resolveu se mudar para o Brasil, onde já passou por diversas cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, entre outras. Atualmente vive na região metropolitana de Curitiba.

Lembro como se fosse ontem, quando estava na livraria Bertrand (a livraria mais antiga do mundo, fundada em 1732), em Lisboa, e me deparei com este livro. O título, o tamanho, a fonte e as ilustrações de capa me fizeram levá-lo imediatamente para casa. E como agradeço por ter feito isso. Descobri ali, naquelas 142 páginas, um escritor de um sensibilidade rara, muito difícil de se encontrar nos dias de hoje. Paulo fala sobre o amor e os problemas cotidianos da vida com uma sabedoria singular e uma sinceridade que comove. Algo muito similar às poesias de Fernando Pessoa, um dos poetas mais conhecidos no mundo todo – e que hoje é um símbolo português.

Por coincidência, acabei descobrindo um projeto intitulado “70 cartas, 70 fotografias”, idealizado pelo estudante português Luís Mesquita. “Achei que cada carta merecia uma fotografia e que o Instagram seria o lugar ideal para este projeto ganhar vida. Foi então que resolvi criar a hashtag #70cartas70fotografias, onde desenvolvo meu trabalho em cima de alguma frase que me despertou maior atenção e que tenha força iconográfica”, conta ele. O trabalho pode ser conferido no perfil @luis_mesquita, que hoje conta com quase 40 mil seguidores no Instagram.

Paulo Jose MirandaAssim como Luís, o livro também me despertou à criar, como se precisasse fazer algo para que outras pessoas também o conhecessem. E de que forma mais apropriada poderia fazer isso, se não usando este espaço online para divulgar um trabalho que deve ser reconhecido? E de que forma melhor, se não a escrita? Resolvi entrar em contato com o Paulo por e-mail, onde fizemos a entrevista que você pode conferir abaixo:

  • Paulo, a maioria das pessoas tem o costume de perguntar da onde surgiu o gosto pela escrita. Porém, eu também como escritora, sei que isso não é algo que surge de repente. É uma necessidade, ou talvez até mesmo uma extensão do nosso próprio ser. Por isso te pergunto: o que (ou quem) te inspirou a escrever? Quais são seus livros e escritores favoritos?

Os meus escritores têm mudado ao longos dos anos. Tenho influências tão distintas como Heidegger e Husserl (filósofos), Marcel Proust, Dostóievski e Kafka, os grandes escritores do império austro-húngaro (Robert Musil, Hermann Broch, Hugo Von Hofmannsthal, Karl Kraus) ou os poetas chineses da dinastia Tang (Li Bai, Bai Juyi, Du Fu) e os poetas portugueses Fernando Pessoa, Herberto Helder, Jorge de Sena e José Agostinho Baptista.

  • Como foi o processo de escrita de “Todas as Cartas de Amor”? Foi algo planejado ou eram textos que você escrevia esporadicamente e resolveu juntá-los, todos, algum dia? Quanto tempo levou para escrever todas as cartas?

Foram planeadas a partir de uma carta que escrevi a uma mulher, a primeira. A partir daí um amigo meu, Francisco Uhlfelder, criou um site chamado O Coração Gasta-se, de modo a eu publicar uma carta online todas as segundas-feiras. E esse é o resultado. Também de muitas cidades por onde fui passando: Lisboa, Paris, Madrid, Rio de Janeiro, Buenos Aires, São Paulo e por fim Curitiba.

  • As cartas foram escritas para alguma pessoa em especial ou foram escritas em diversos momentos da sua vida?

Teve duas cartas escritas para pessoas particulares: a primeira e a última. As outras são ainda mais inventadas do que essas duas. O que não é inventado é o sentimento que tentam transmitir.

  • Como você vê a poesia brasileira e portuguesa? Acha que há características comuns entre elas? Julgas que no Brasil há mais espaço para a poesia (ou o contrário)?

O tamanho continental do Brasil tem muitas vantagens, mas também algumas desvantagens. E dentro destas últimas, está o facto de ser muito difícil de conhecer a poesia que está a ser feita no Brasil. Ainda para mais quando há uma espécie de provincianismo instalado, querendo fazer crer às pessoas que para além do eixo São Paulo – Rio de Janeiro, o que se escreve é regionalismo. Tenho encontrado fora desse eixo poetas muito bons, mas que não têm alcance nacional, precisamente pelo que falei anteriormente.

  • Você resolveu sair de Portugal para morar no Brasil. Existe algum outro lugar que você gostaria de morar? Acha que essas mudanças constantes ao longo da vida o inspiram a escrever?

Por mais que eu não queira aceitar, julgo que sim: as mudanças estimulam-me a escrever. Antes de viver no Brasil tinha já vivido na Turquia cinco anos, principalmente em Istambul.

 

Obviamente, não poderia deixar de publicar aqui a minha carta preferida. A carta que me fez escrever este texto, ir atrás do Paulo e conhecer o Luís. A carta de número 52:

“Meu amor,

 

Não é a tristeza que me dói. A tristeza define-me. A alegria e o céu azul sempre foi uma paisagem rara na minha vida – um inteiro dia de sol, sem nuvens, em São Paulo. A tristeza não é bem o que dizem dela – nem sei bem o que dizem dela. A tristeza é o engano. Enganar-se continuamente na vida, seguir pela vereda que não se devia seguir é o que define a tristeza. A tristeza carrega o mundo, a alegria voa, voa no alto e imenso azul. Sem tristeza não havia quem voasse, meu amor. Sem mim, e outros como eu, não havia tu e outros iguais. Somos nós, os tristes, que nos nossos enganos carregamos o mundo e limpamos os céus para que voes. Todos os que se enganam apenas às vezes são como tu; os outros são como eu. Sei disso há muito, meu amor, por isso a tristeza não me dói. Não me dói os enganos perpétuos que vou cometendo, dói-me que não te enganes comigo, que não sigas pelas erradas veredas da tristeza e escolhas o voo da alegria. Se pudesse ser outro que não eu, não queria. Não quero a alegria pra nada. Não invejo os alegres com suas asas esticadas, lá no alto. Invejo, sim, quem é como eu e tem alguém triste ao seu lado. Invejo quem tem alguém na vida com quem se enganar. Meu amor, não queria ser alegre ao teu lado, acredita. Queria que fosses triste aqui, ao meu lado. Que aceitasses a árdua tarefa de me ajudar a carregar o mundo. Não o posso afirmar com certeza, como bem sabes, mas desconfio que um beijo dado entre os tristes tem mais sabor que um beijo dado entre os alegres. Um beijo no mundo tem mais valor do que um beijo no céu. Os tristes, quando se beijam, beijam-se com as ervas húmidas da manhã, com as folhas sujas do laranja gasto do Outono, com a consciência de uma doença por perto. Os tristes, quando se beijam, apagam feridas. Os tristes, quando se beijam, criam raízes. Os tristes, quando se beijam, não dizem nada. Mas, meu amor, não penses que a alegria não é boa. Não penses mal de ti. A alegria tem o valor das coisas leves, perfumadas, cheias de nuvens, o valor das coisas que não se palpam. A alegria tem o céu e os mares do seu lado. Por isso, meu amor, repito as vezes que forem precisas: o que me dói não é a tristeza, mas não ter uma triste ao meu lado.

 

O teu”