Pelo direito de fechar a porta

Ruidosamente me olham de lado e reprovam a minha opção de permanecer em silêncio. Como se houvesse algo de errado em se recolher por um momento ou por um tempo maior. Como se não percebessem que toda essa exposição ao cotidiano cansa, e eu preciso – pois há quem precise – me envolver um pouco mais comigo mesma para não me perder.

E isso é tudo culpa dos medos. Medo de deixar passar o tempo e não me ver nele. De olhar muito pra frente, muito pra trás, ou muito pra qualquer outra direção. E no meio disso tudo, acabar esquecendo o que é essencial: olhar para mim mesma. Pois tenho grande receio de me perder a ponto de não saber mais se meus olhos ainda brilham por alguma coisa. Receio de que eu esteja postergando meus sonhos e colocando ações sem sentimento no lugar deles. Afinal, nós nos escondemos atrás das obrigações do dia a dia e as utilizamos como desculpa para o depois. E é por isso, exatamente por isso, que eu preciso daquele momento a sós comigo mesma. Para ser franca, para botar na mesa (ou na cama) alguns pontos em que andei pensando, alguns devaneios que martelam na minha cabeça. Coisa de quem pensa demais…

E fechar a porta é isso. É conversar consigo mesma. Sem necessidade de etiqueta ou roupas bonitas. Às vezes não tem motivo algum, e nós duas (eu e eu mesma) só queremos respirar a sós. Tomar um bom banho, ouvir uma boa música, sorrir sem motivo algum. Apreciar a própria companhia. Pra reparar, de tempos em tempos, nas cicatrizes deixadas pela vida (que são muitas). Pra perceber que uma noite de sono ajuda, e que dormir sozinha às vezes é muito melhor do que acompanhada. Aliás, estar sozinha não é estar perdida no mundo – é, na verdade, a melhor forma de se encontrar quando esquecemos quem somos. E aí, só depois que aprendemos a fazer isso, é que somos capazes de compartilhar o nosso silêncio com alguém.