#SPFW: desfile Ronaldo Fraga + entrevista exclusiva

Ronaldo Fraga sempre surpreende com os temas e conteúdo que leva para a passarela. Seu último desfile, que ocorreu na terça-feira durante o SPFW, foi uma ode ao amor – ou melhor, a todas as formas de amor. “Em tempos de guerra, não há maior transgressão do que falar de amor e paixão”, explica ele à Folha de S. Paulo. “Só o amor e a morte conectam erudito e popular”.

Para o seu Inverno 2016, Ronaldo coloca em camisolas, saias e maxipullovers, o tema do sem gênero, com lânguidas usadas por homens e mulheres. A seda, produzida no Vale da Seda do Brasil, no Paraná, foi o tecido principal da coleção. “Daqui a vinte anos, o vestido de seda vai ter mudado de cor e de forma. Achei perfeito para simbolizar o amor”, explica ele.

Nas estampas, podemos encontrar as mais variadas formas de caracterizar o amor. Desde o mais visceral, com uma ilustração real de um coração, até as bolsinhas no formato mais comercial do desenho.

Uma de suas inspirações foram os poemas eróticos de Hilda Hilst, que o estilista começou a reler no processo criativo da coleção. A trilha sonora ficou por conta de “Terezinha ou Tanto Ar”, de Chico Buarque, “Olvidame y Pega La Vuelta”, com “Pimpinela”, cantada aqui há décadas por Jane e Herondi, e o clássico Tchaikovsky.

Vale a pena dar olhada na galeria abaixo, já que o cenário estava lindamente montado pelos arquitetos Clarissa Neves e Paulo Waisberg.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Algumas semanas atrás, no dia 6 de Outubro, Ronaldo participou de um evento aqui na minha cidade, para o lançamento do livro “Ronaldo Fraga: Caderno de Roupas, Memórias e Croquis”, pela editora Cobogó. Aproveitei a oportunidade para bater um papo com ele, antes do evento, no restaurante do hotel onde ele estava hospedado.

Confiram abaixo:
003

Como foi reunir toda a sua história em um livro?

Eu tenho uma mania de fazer, em todas as coleções, um caderno. Ele funciona como uma espécie de diário, onde escrevo e desenho tudo sobre esses cinco meses vividos antes de uma coleção, e informações do objetivo pesquisado. Apesar de que, claro, nem tudo o que está ali vai para a coleção. Mas me inspira. E o mais importante é ter o desenho como um ponto de partida, que é algo que caiu em desuso. Afinal, hoje em dia, para você ser um estilista, arquiteto, designer gráfico, entre outras coisas, você não precisa mais saber desenhar – os programas de computador já fazem isso pra você. E é justamente por isso que o desenho voltou à moda. Na Europa, por exemplo, as agências estão contratando a peso de ouro quem desenha à mão livre, porque é cada vez mais raro. E foi desse pensamento que surgiu a ideia de lançar o livro, um livro do meu processo criativo. Mas algo que pudesse agradar a todos os públicos, desde o infantil até o adulto. E o resultado tem sido maravilhoso.

E suas inspirações costumam ser em escritores, poetas, músicos…

Sim, esse é o meu universo de criação. É a minha geografia amorosa sobre o Brasil. Porque aqui nós temos literatura, música, arte popular, arte contemporânea… Você tem saberes e fazeres tradicionais. Você tem a união de pontos do Brasil, desde uma figura como Lupicínio Rodrigues, lá no Sul, até Mário de Andrade, que saiu de São Paulo e fez o turista aprendiz, costurando toda a cultura brasileira – e cujo legado o Brasil ainda não se deu conta. Temos Noel Rosa, Nara Leão, Graciliano Ramos… É uma infinidade de inspirações. E me sinto no dever de falar para essa nova geração que ninguém nasce no Brasil impunemente. Se você nasce aqui, em um país com um peso cultural imenso, você já nasce com a inspiração frente a frente. Basta aproveitar.

Que autores brasileiros você mais gosta?

Eu gosto de muitos. Mas hoje eu me vejo na função de lançar luz para os clássicos, que estão em vias de esquecimento. Mário de Andrade é meu grande mentor, mas eu sou de uma geração que foi alfabetizada com Manuel Bandeira. Então como não falar de Manuel Bandeira, ou de Cecília Meireles? Como não falar dos nordestinos, que revolucionaram e construíram a literatura moderna, como Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freire? Sem contar, claro, com os maiores nomes do nosso país: Drummond e Guimarães Rosa.

E quais são os livros que mais te marcaram?

Olha, toda coleção tem um livro escondido. No inverno passado, por exemplo, foi “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto. No de verão desse ano, das sereias, foi “Mar Morto”, de Jorge Amado. Para essa próxima coleção, aproveitei para reler a obra de Hilda Hilst, que adoro. Mas costumo falar: coleção boa é coleção que me dá motivos para ler muita coisa.

E música?

O nosso maior produto, ou melhor, o nosso mais bem resolvido produto, é a música. Acredito que até a nossa pior música é melhor do que a música que vem de fora. E se tem um lugar que não nos colonizaram foi justamente na música. Eu poderia falar de muitos… Mas eu tenho uma predileção em falar dos modernistas, que é aquela geração da década de 30 a 50, que foi a geração que forjou o Brasil. Destaco alguns, como: Athos Bulcão, Nara Leão (que eu amo), João Gilberto, Noel Rosa, Graciliano, Drummond, etc. Essas figuras já estavam muito à frente do seu tempo. Então imaginem: se hoje elas ainda não são entendidas pela grande maioria dos brasileiros, você pode imaginar o que era isso há 60 anos? E foi ali que o Brasil moderno foi forjado. Eu acho isso emocionante. E uma grande lição para a moda.

Como você vê a moda hoje?

A moda não existe mais. Nem aqui, nem lá fora. Eu lembro de falar isso em 2012 e ser muito criticado, inclusive pelos meus próprios colegas. Mas hoje os grandes bureaus de moda já falam: a moda acabou. Pelo menos como a gente conhecia, ela acabou. Hoje é outra história. Sinto que estamos buscando um caminho. Não faz mais sentido a tendência – isso é indústria de roupa. A moda como uma bandeira política ou como um instrumento de transformação, está precisando se reinventar. O que a gente vive hoje é uma produção de roupas feitas na China, e as marcas daqui (os novos designers) querem copiar a fast fashion. Na minha geração, a gente ia ao contrário. E quando você vai ao contrário, quando se nega aquilo, aí sim é moda.

Então quem você acha que faz moda no Brasil?

Bom, eu não gosto de falar mal de ninguém no Brasil, porque sei o quanto é difícil fazer moda aqui. A gente está passando por tempos conformistas… [silêncio]. Mas claro, admiro muita gente. Até porque nós temos nomes brasileiros que têm assinatura, que é uma coisa rara. Por exemplo: Osklen, Alexandre Herchcovitch, Reinaldo Lourenço… Eles têm assinatura. Mas aquela coisa diferente, que faz a diferença, não tem não.

Que conselho você dá para os jovens empreendedores dessa geração, que querem começar algo novo?

Primeiro é fundamental ter um olhar difuso sobre o que quer criar. E pensar em algo dentro do seu tempo, do seu mundo. Porque se a pessoa pensa só em roupa, de largada, ela já está em concorrência com um gigante que ela não dá conta e que não vale a pena brigar (porque é outra história), que é a China. Então é preciso construir outras vias. E essas outras vias precisam ser construídas com outros valores, que falem direto ao coração, que falem direto a outros lugares. Só assim a pessoa consegue se manter no mercado.

E pra finalizar, qual o melhor conselho que já te deram?

O melhor conselho que já me deram? [silêncio] Acho que foi um professor, que virou pra mim e disse: “não faz isso não. É tão difícil viver de moda no Brasil, ainda mais moda com cultura”. Aí de pirraça eu fui lá e fiz [risos].