Brasileiros em Portugal: conheça a história dos criadores do Cultuga

Algumas cidades ao redor do mundo conseguem, de forma inexplicável, ganhar nosso coração. E sempre tive algum tipo de ligação com Portugal, antes mesmo de conhecer o país pela primeira vez. Gostava de comprar livros sobre a cultura portuguesa e, aos 12 anos, lembro de ler um livro chamado “O meu Alentejo” – que me marcou, desde aquele dia, e me fez querer ainda mais visitar o país.

Em 2014, durante um jantar com minha melhor amiga (que, felizmente, compartilha da mesma paixão que eu), surgiu a ideia de fazermos nossa primeira viagem juntas – 15 dias em Lisboa. Nenhuma das duas conhecia a cidade, nenhuma das duas fazia ideia do que encontraria por lá.

Mas fomos. E não deu outra. Lembro de caminharmos pela Rua Augusta e, através dos arcos, ver aquele pôr do sol estarrecedor – um dos mais lindos que já vi na vida. Parecíamos duas baratas tontas andando pela Praça do Comércio, ainda chocadas pela beleza daquele lugar e pela vista. A luz que refletia no rio, a música que tocava ao fundo. O mundo parecia congelado naquele momento. E foi ali que se confirmou: Lisboa é, definitivamente, a nossa cidade do coração 🙂

E foi logo depois disso que surgiu a ideia de criar esse site. Uma forma de aproximar os dois países (Brasil e Portugal) e mostrar todas as belezas que existem por aqui e por lá – tudo em primeira pessoa, uma espécie de diário de viagem.

Recentemente senti a vontade de compartilhar as histórias de outras pessoas que também compartilham do mesmo sentimento que o meu. Brasileiros que escolheram Portugal como seu país do coração e vice-versa. Os primeiros convidados para essa tag são Priscila e Rafael, o casal que comanda o site Cultuga – um dos melhores para quem está de viagem marcada e procura dicas infalíveis sobre o país (já passei boas horas por lá).

Conversamos por e-mail, onde fiz a entrevista abaixo:

  • Contem um pouco sobre o trabalho de vocês antes de se mudarem para Portugal

Priscila Roque (34 anos): Bom, eu sou jornalista com especialização em Jornalismo Cultural. Antes de me mudar para Lisboa, era colaboradora da livraria e editora Saraiva, produzindo reportagens e entrevistas para o Almanaque Saraiva e para o portal de cultura Saraiva Conteúdo. Eu vivia em São Paulo, capital. Paralelamente ao jornalismo, também mantinha a minha atividade de fotógrafa e o meu blog sobre cultura portuguesa, o Cultuga.

Rafael Boro (32 anos): Eu vivia em São Paulo. Me formei em jornalismo e sempre trabalhei na área. A última empresa foi a Rádio Jovem Pan, onde conheci a Priscila. Além da rádio, eu mantinha também um site especializado em tênis, o Curta Tênis. Entre 2010 e 2013, cobri grandes torneios e eventos no Brasil.

  • Vocês sempre tiveram vontade de mudar, ou foi algo inesperado? Como foi essa decisão e, principalmente, a transição de um país para o outro?

Priscila: Até uma certa altura da minha vida eu nunca tinha pensado em viver fora de São Paulo, apesar de ter os meus pais portugueses imigrados no Brasil (o meu pai é da região de Aveiro e a minha mãe do Funchal, na Ilha da Madeira). Porém, desde 2007, quando viajei de férias pela primeira vez a Portugal, logo me apaixonei. Antes de me mudar, retornei diversas vezes de férias e já cultivava amigos portugueses. Eu sabia que passaria algum momento da minha vida aqui, só não sabia o quanto e quando. Assim, em 2010, acabei por criar o Cultuga, um lugar em que eu pudesse dividir essas descobertas e essa paixão por Portugal. Em 2011, infelizmente passei por um assalto dentro de casa. Na época, o Rafa logo disse: “Chega! Vamos embora”. Foi quando começamos a pensar na possibilidade de imigrar e Lisboa acabou sendo uma escolha natural, principalmente por já termos uma história anterior de muito carinho com a cidade.

Rafael: Sempre tive vontade de sair do Brasil. Não tinha um “lugar dos sonhos”, mas depois de conhecer a Priscila e ver a paixão dela por Portugal, acabei criando esse carinho. Cheguei a pensar nos Estados Unidos, mas Portugal acabou “ganhando”. A decisão final de mudar aconteceu após um assalto na casa da Priscila. Foi a gota d’água. Estudamos as possibilidades de viver em Lisboa, arrumamos todos os documentos necessários e planejamos a mudança por mais de um ano.

  • Quais foram as maiores dificuldades na hora da mudança? E por que Lisboa?

Priscila: Lisboa é a minha cidade de eleição no mundo, a que escolhi com o coração. Esse amor já é antigo, pois tinha um interesse por ela antes mesmo de conhecê-la – sobretudo por sua vida cultural, que anda lado a lado com as tradições. Quando pude visitá-la pela primeira vez, em 2007, só confirmei tudo aquilo que já imaginava – e que tínhamos muito em comum. As maiores dificuldades que eu e o Rafa tivemos nessa fase são lembradas como lições importantes. A primeira delas foi se desfazer de tudo o que tínhamos no Brasil. Se desapegar de tudo e fazer a vida caber em duas malas de 32kg. Essa experiência nos deu a oportunidade de entender que não precisamos das “coisas”. Que o mínimo é o suficiente para ser feliz. Uma outra dificuldade que tivemos foi na procura do apartamento ideal. Como nunca tínhamos alugado um apartamento sozinhos antes, a nossa primeira escolha não foi certeira. Vivemos em um apartamento que era muito úmido e frio, logo de cara. Mas na segunda mudança acertamos na escolha e essa questão foi solucionada. Agora, a dificuldade constante, que não há como remediar, é a distância da família. É uma opção que fizemos e temos que aprender a lidar com a saudade. Mas sempre encontramos formas e dispositivos para nos mantermos o mais perto possível de quem a gente ama.

Essa experiência nos deu a oportunidade de entender que não precisamos das “coisas”. Que o mínimo é o suficiente para ser feliz.

Rafael: As maiores dificuldades foram as despedidas das pessoas que sabia que, dificilmente, iriam viajar para Portugal – como os meus avós, por exemplo. Além, lógico, das surpresas que poderíamos encontrar em um país diferente, como os costumes, o dia-a-dia e o começo de uma nova vida com quase 30 anos. Em 2011, vim passar alguns dias em Lisboa. Gostei da atmosfera, do clima, da cultura e dos locais que visitei. Sem contar os amigos que a Priscila já tinha por aqui. Esse foi um ponto fundamental para escolher a capital.

  • Apesar dos dois países dividirem o mesmo idioma, temos muitas diferenças. Para vocês, o que há de positivo e negativo em cada um, e o que há de especial?

Priscila: Você tem razão. Há muitas diferenças, mas eu não sou muito fã de comparações, lado a lado. Acho até injusto colocar o Brasil ao lado de Portugal para comparar algumas questões, sabe? Principalmente por eu ter uma conexão tão forte com Portugal desde pequena e um grande afeto por São Paulo, o meu berço. Assim, prefiro fazer referências a minha vida, especificamente. O que tenho de mais valioso e positivo no Brasil é a minha família, as memórias de bons momentos com os meus amigos e as descobertas ao longo da minha vida. De negativo, as recordações de violência que nunca vão ser apagadas da minha mente. Em Portugal, de positivo é a paz que encontrei, claro. Mas também o desenvolvimento do Cultuga, que deixou de ser um hobby para se tornar o nosso projeto de vida. De negativo, a distância da minha família, de não poder compartilhar pessoalmente algumas boas experiências. Sobre o especial, São Paulo tem alguma magia para mim. É a cidade que me apresentou a profissão que desenvolvi e tenho a certeza que não teria sido a mesma jornalista (ou nem teria me formado jornalista) se vivesse em outro local – sobretudo tão apaixonada por cultura. Agora, o mágico em Lisboa é poder absorver a cultura portuguesa diariamente – algo que não consigo explicar em palavras. É esse amor arrebatador que nos faz acordar todos os dias e nos dedicar com tanto prazer ao Cultuga.

Rafael: Eu gosto da forma mais coloquial que o português de Portugal tem. Vejo segurança ao ler e ouvir. O problema é tentar reproduzir isso no dia-a-dia ou profissionalmente. É preciso muito estudo e convivência diária com portugueses para isso acontecer. O português do Brasil é mais livre e informal. É bom, mas essa informalidade toda atrapalha algumas vezes.

  • Há quanto tempo moram em Portugal?

Priscila: Chegamos em abril de 2013. Portanto, há pouco mais de 3 anos.

  • Como surgiu a ideia de criar o Cultuga? Há quanto tempo ele está no ar e qual o maior objetivo do site?

Priscila: O Cultuga nasceu em maio de 2010. Na época, a ideia era ter um espaço em que eu pudesse dividir as minhas descobertas da cultura portuguesa, além de divulgar shows, peças de teatro e estreia de filmes portugueses no Brasil – visto que essas informações não eram divulgadas de maneira concentrada por nenhum veículo brasileiro. Na época, somente eu escrevia nele. Eu e o Rafa já namorávamos, mas cada um tinha os seus trabalhos e projetos pessoais. Um ano depois da nossa chegada a Lisboa, vimos no Cultuga a possibilidade de transformá-lo em algo profissional, a partir da alta procura que tivemos de amigos e colegas por conteúdo sobre Portugal, além do prazer que já tínhamos em explorar cada cantinho do país. Assim, em 2014, contamos com o suporte profissional de amigos que nos ajudaram criando um logo (que é o nosso xodó) e uma identidade visual bacana, com novas categorias e uma organização mais interessante do conteúdo. Passamos a fortalecer parcerias com empresas locais e o crescimento dele foi natural. Para fortalecê-lo, criamos alguns serviços, como o de consultoria para viajantes (quando passamos um pente fino nos roteiros, tiramos dúvidas e fazemos um upgrade com mais dicas e sugestões personalizadas), o roteiro personalizado (quando criamos um percurso passo a passo para o viajante seguir em um material impresso ou com acesso ao celular/tablet, desde a elaboração da rota, a escolha dos hotéis, os deslocamentos, as atrações, os restaurantes, cafés e as lojas) e o ensaio fotográfico (quando partimos em um percurso a pé com o viajante e, durante o trajeto, fazemos uma sessão fotográfica – tendo como pano de fundos os principais símbolos de Lisboa). Nós também acompanhamos viajantes brasileiros por Lisboa, quando nos é solicitado.

Rafael: Sem dúvida, hoje, o maior objetivo do site é ajudar os turistas brasileiros que visitam e gostam de Portugal.

  • Então, no momento, vocês se dedicam em tempo integral para ele, certo?

Priscila: Exatamente. No final de 2015, conseguimos deixar as nossas outras atividades para nos dedicarmos em tempo integral.

  • Se pudessem dar uma dica de passeio tem-que-ir em Lisboa, qual seria?

Priscila: Ver o pôr do sol na beira do rio Tejo, entre a Praça do Comércio e o Cais do Sodré.

Rafael: Lisboa tem muita coisa para conhecer. Mas o melhor que se tem para fazer é andar e se perder pelo centro histórico. É uma surpresa atrás da outra, principalmente nos bairros com subidas e descidas, como Alfama, Graça e Bairro Alto.

Perguntas rapidinhas:

Palavra ou expressão que mais gostam em Portugal

Priscila: “Estou feito ao bife” (risos)
Rafael: “Muita bom”

Prato português favorito

Priscila: Prego
Rafael: Arroz de Pato

Do que mais sentem falta do Brasil

Priscila: Família e açaí (batido com morango e leite condensado)
Rafael: Família e amigos

Portugal em uma palavra

Priscila: Amor
Rafael: Paixão

Mais informações:
Cultuga
contato@cultuga.com.br