Pensamento solto #4 (três meses de Lisboa)

Eu não sei se acredito muito nessa coisa de vidas passadas, destino, e por aí vai. Mas tenho uma certa certeza de que temos realmente algo dentro de nós que nos guia para certas direções – lugares nos quais pertencemos, pessoas que parecem ter sido colocadas no nosso caminho de propósito… aquela sensação estranha de que algo te liga a alguém ou a um lugar. Uma espécie de imã interior. Uma bússola invisível. Difícil de decifrar.

E eu sempre soube (apesar de ignorar) que eu não pertencia ao lugar que supostamente deveria pertencer. Lá no fundo eu vivia inquieta, sem saber que voz era aquela e por que eu sentia aquilo. Demorei a entender que eu não precisava agradar a quem nunca me agradou. Que eu não precisava ficar onde era suposto ficar. Que a vida é uma só, e é curta, e que bom que entendi isso cedo. Não é fácil viver de rodinha. Mas é engraçado analisar o processo e olhar para trás.

Lembro até hoje do drama que causei quando, aos oito anos, cismei que precisava partir, que já havia frequentado a escola o suficiente para parar de estudar. Achava que não deveria gastar o meu tempo com isso (sempre ansiosa, sempre pensando mais no amanhã do que no hoje). Lembro também do último ano de ensino médio e do último dia de aula. Foram 12 anos na mesma escola, fazendo o mesmo trajeto, estudando com as mesmas pessoas. Parecia que um mundo novo havia surgido, e no dia seguinte embarquei para Barcelona. Foi um misto de sensações, um dos momentos mais empolgantes da minha vida. Ali entendi que somos um nada e que há um mar de possibilidades e de experiências para se ter e sentir.

Mas precisava voltar, precisava ligar um mudo na minha voz interior e começar tudo de novo. Casa, faculdade, as mesmas pessoas e os mesmos dramas de uma cidade pequena. Aguentei um ano. Fui para São Paulo, seguindo a intuição (apesar de um pouco falha, ali não era meu lugar). Tive uma experiência extraordinária, conheci pessoas idem. Vi um lado horrível do mundo.

Depois disso voltei. Peguei as malas e segui para Lisboa, na incerteza. É estranho ver como a cidade sempre esteve no meu caminho. Lembro que em Barcelona, voltando para casa, dentro do avião, ficava olhando para o mapa cismada de que precisava conhecer esse lugar. Sem explicação. Precisava. Ponto. E isso foi em 2011.

Depois, quando pisei na cidade, entendi o que era. Em pouco tempo percebi que Lisboa era a minha cidade – não me perguntem como, nem por quê. Senti que precisava ficar, só não sabia por onde começar. Foi uma caminhada longa, entre idas e vindas, entre o sim e o não. Sem saber se ficava, se partia. Na loucura, fui. Larguei emprego, casa, amor de mãe, família, amigos, faculdade… larguei o que me era tão confortável.

Ao total já contabilizo três meses do outro lado do Atlântico. Já mudei de endereço quatro vezes, já passei por poucas e boas. A vida de rodinha é desgastante. Há sempre algo que se esquece, algo que precisamos desapegar, uma dor nas costas, nas pernas, na alma. Nunca se sabe muito o que se sente. E depois de um tempo o melhor mesmo é parar de se perguntar. E viver. Sem planos futuros, sem expectativas.

No fim, ou no meio, aprendemos que as raízes vivem dentro da gente. Que uma peça de roupa não é nada frente às estradas da vida. Que o lar se constrói onde há amor. E que o amor vem das experiências, do convívio, de entender a dor do outro.

Viver de rodinha foi a minha escolha. E apesar de todos os pesares, pela primeira vez, sinto que pertenço a algum lugar (mesmo que não haja exatamente um lugar).

E que venham os próximos meses…

Ou anos <3