Por que resolvi morar no exterior

Desde que escolhi Portugal (ou o mundo) como lar, sempre tive o desejo de escrever um texto completo sobre por que, de fato, resolvi abandonar tudo e partir numa aventura tão louca (e deliciosa) que é viver no exterior.

Recebo muitas mensagens e, para esclarecer desde o início, eu não tenho nenhum laço por aqui. Não tenho família, não tenho passaporte português, europeu, ou nada do gênero. E também não vim acompanhada. Foi mesmo assim, na cara (de pau) e na coragem: eu e eu mesma, sem ter a menor ideia do que o amanhã me reservava.

Por que sair do Brasil

Primeiro devo dizer que este tipo de mudança e decisão vai muito de acordo com a personalidade da pessoa. É preciso querer muito. E eu sempre fui destemida e impaciente (num nível bem hardcore da coisa). Aos oito anos, para vocês terem uma noção, foi o momento que decidi que queria sair da cidade, largar tudo e viajar o mundo.

“Estudar pra quê?”
Ecoava uma Dani rebelde pela casa.

E minha mãe, sempre muito paciente, tentava colocar meus pés no chão e explicar que, depois do período escolar, eu poderia, finalmente, seguir o meu caminho da forma que mais me apetecesse.

E eu ficava lá, contando os dias. E minha mãe, muito provavelmente também – mas, neste caso, para a minha fase rebelde passar. Nunca passou, como devem imaginar.

Resumo da ópera: eu sempre tive aquele bichinho dentro de mim. Aquele bichinho que dizia “vai ver o mundo, tem tanta coisa para explorar lá fora”. 

Ao lado disso, também há toda uma realidade triste que o Brasil enfrenta. E como boa impaciente (e pessoa que já tem 10 passos dados no futuro), me questionava se era esse o país que queria criar meus filhos e viver minha vida.

E só quem vive no Brasil sabe do que estou falando. É complicado explicar. É complicado explicar que em cidades como São Paulo (para exemplificar), todos os dias você sai de casa sem saber se vai voltar. Você sente medo.

É complicado viver em um país que respira diariamente um clima de Guerra Civil – expresso em um número de mortes semelhante ao de regiões deflagradas na África ou Oriente Médio. Dá muito, muito medo.

Os meses que vivi em São Paulo foram suficientes para me mostrar uma realidade que eu preferia não ver. Cada dia por lá é uma luta, é preciso matar um leão por dia, como costumam dizer. E esse é o lema que rege o país. E esse é o lema que, infelizmente, definiu o brasileiro.

É cada um por si, ponto final.

E tudo isso não é fácil. E cansa. E a vida já é complexa demais para tanta preocupação. E é, acima de tudo, muito curta para passar os dias sonhando com uma realidade melhor. Porque ela existe. Ela está ali, do outro lado da linha do horizonte (aquela que vimos quando contemplamos o mar), basta ter coragem e fé.

Por que Portugal (ou, mais precisamente, Lisboa)

Pois bem, a “nossa” história é engraçada. Em 2012, do alto de um avião, estabeleci uma relação muito estranha com Lisboa. Lembro de acordar no meio do voo (era uma conexão Madri-São Paulo), ligar a televisão na minha frente, abrir aquele mapinha digital e… lá estava eu, bem em cima da cidade que eu iria me apaixonar perdidamente anos depois. Senti uma sensação estranha, como se aquele nome, aquela localização e aquele momento fossem uma espécie de “clique”. Desde então soube que precisava ir para lá. E fui. Em 2014, 2015 e 2016 (esse último para ficar).

Sinto que já vivi aqui antes, é difícil explicar. Lisboa é uma cidade deliciosa, aconchegante e estranhamente familiar.

E é tão bom construir uma nova existência longe de tudo o que já conheço e acredito… Essa deve ser, muito provavelmente, uma das formas de autoconhecimento mais poderosas que devem existir. Porque a vida longe expande os nossos horizontes, abre a nossa mente e nos mostra o que realmente importa na vida. É mais ou menos como dar à luz a um novo “eu”. É sofrer (muito) e ter (muito) orgulho do adulto que você recriou. E acima de tudo, é aceitar que você jamais será o mesmo, que está em constante mutação.

E agradeço Portugal (e o mundo) todos os dias por isso.

Se alguém pensa em mudar, já mudou ou quer apenas conversar, estou sempre disponível para a troca de experiências. Podem me escrever 🙂

Para finalizar, quero deixar um trecho do livro “Nunca desista dos seus sonhos”, do psiquiatra que admiro muito Augusto Cury (e que li lá em 2007, aos 11 anos):

“Jamais desista de ser feliz. Lute sempre pelos seus sonhos. Seja profundamente apaixonado pela vida. Pois ela é curta. E é um espetáculo imperdível”.