Pensamento solto #7 (os pequenos gestos)

As pessoas têm uma certa mania de embelezar a vida nas redes sociais (e sim, não posso ser hipócrita pois também o faço). Mas a verdade é que nem todos os dias são felizes. E isso é, felizmente ou infelizmente, o que faz da vida, vida. Os tais altos e baixos, uma montanha-russa constante.

Na última semana estava assim, me sentindo esgotada. E viver longe duplica a intensidade das coisas. Não há colo de mãe nem conforto do lar. É difícil. Mais difícil do que algum dia eu poderia imaginar. Mas faz parte da minha escolha, ponto final. Nesses momentos costumo fechar os olhos, respirar fundo e continuar a estrada.

Mas não posso deixar de registrar um acontecimento recente. Daqueles que nos aquecem a alma e fazem a nossa vivência nessa terra ser (um pouco) mais leve.

Na quinta-feira tive um daqueles dias onde tudo dá errado (quem nunca?). Estava atrasada, peguei trânsito e, ainda por cima, perdi o comboio que me levaria ao trabalho. Para piorar, uma dor de cabeça insistia em me fazer companhia (o que resultou em uma crise de enxaqueca “daquelas”, que me deixaria de cama por três dias).

Malditas enxaquecas.

Entrei no comboio e sentei ao lado de um senhor que emanava um cheiro forte a cigarro. Eu estava arrasada, já prevendo os olhares que receberia no trabalho e me concentrando para a dor de cabeça desaparecer. Ou melhor, queria eu desaparecer. Me teletransportar para a minha casa, há 8 mil quilômetros de distância, onde eu e minha mãe estaríamos, muito provavelmente, sentadas no sofá. Cada uma com sua xícara de café, rindo e falando besteiras (como sempre fazíamos todos os dias). O “nosso” momento. Uma das coisas que mais sinto falta.

E de repente, sem mais nem menos, o senhor ao meu lado me tira desses pensamentos com uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, surpreendente: “por que estás triste, menina?”. Fiquei sem reação.

Não é nada”, disse eu. “Só estou atrasada”.

E no meio de todas aquelas pessoas, presas em suas vidas e seus problemas, o senhor conseguiu me arrancar um sorriso. Parece até estranho e algo irreal. Mas seguimos conversando. Sem ele fazer a menor ideia do bem que me fazia e do quão grata eu estava por aquelas palavras.

Saí do comboio com lágrimas nos olhos (sem exageros).

Esse senhor, seja lá ele quem for, deveria ser um exemplo para todos nós. Para que prestemos mais atenção às pessoas a nossa volta e sejamos mais humanos, mais solidários uns aos outros.

Sei que ele não vai ler isso, mas queria escrever algo que ficasse registrado. Uma forma de agradecimento por ter tornado o meu dia um pouco mais leve. E também mais feliz 🙂 Obrigada, de coração.